O MILAGRE DOS BOMBONS


Tinha feito bem os deveres da escola e recebeu, como recompensa, um pacotinho de bombons. Não era muito grande, é verdade, mas quando não se está habituado, é um prazer.
Pegou primeiro num (era justo, eram para ela), depois distribuiu um a cada companheira. Acabada a volta, olhou para o fundo do pacotinho: sobrava um bombom.
Para ela? Nem pensou nisso. As suas amiguinhas só tinham tido um. Porque havia ela de ficar com dois?
Teve uma ideia, uma ideia muito linda. Como só as meninas pobres têm. Esse bombom, oferecê-lo-ia à Virgem. Na igreja, no altar que Lhe é dedicado, a Santíssima Virgem recebe muitas vezes flores. Às vezes cercam-na de placas de mármore muito feias. Mas nunca Lhe dão bombons. Portanto, talvez Lhe agrade!
O prior, que recitava o breviário na nave lateral da igreja, viu a criança aproximar-se da imagem e estender a mão para ela.
- Que fazes aí? - perguntou-lhe.
- Trago uma coisa à Virgem, respondeu ela.
- O quê?
- Um bombom.
O velho prior estava bastante comovido, mas não deixou transparecer nada.
- Nossa Senhora é muito grande para gostar de bombons, disse-lhe. Ela agradece-te e pede-te que o dês à criança mais infeliz que encontrares. À mais abandonada.
E a menina pensou nos leprosos.
«Vou mandar este bombom a um menino leproso», confidenciou ela às companheiras.
E estas: «Porque não havemos de fazer todas o mesmo?» Organizou-se uma colecta. Pediram aos pais, ao merceeiro da esquina, aos amigos, aos indiferentes, às pessoas da rua, a toda a gente. «É para mandar um bombom a um menino leproso.»
Como outrora o pão e os peixes abençoados por Cristo, os bombons multiplicaram-se. Cerca de 250 escudos foram recolhidos para a sua compra.
De tal maneira que, numa pobre aldeia de África, houve para um pequeno mundo de crianças leprosas gulodices e alegria...
Não é uma história verdadeiramente digna do Evangelho?


in “A Única Verdade é Amar”
Raoul Follereau (1903-1977)



CRIANÇAS DE ANGOLA


Em todas as cidades e aldeias, aí estão elas a vibrar de alegria. Refiro-me, claro, às crianças. E, neste caso, às de Angola. Percorri boa parte do país e esta é uma imagem que me ficou gravada na retina. Há muitas, mesmo muitas crianças. Felizes, pelo menos, de aparência. Vemo-las nos pátios das casas, na rua, junto às Escolas, à entrada das Igrejas, nos campos de desporto. Correm, gritam, pegam-se umas com as outras, jogam, caminham ao longo das ruas, trabalham nas lavras, transportam coisas à cabeça. São, como disse Fernando Pessoa, “o melhor do mundo”.
Se é verdade que Angola transpira futuro por todos os poros (tanta criança, tanto jovem, tão poucas pessoas idosas…), também preocupam alguns indicadores que os próprios meios de comunicação social do governo mostram ao mundo. Há milhares de crianças que não vão à escola: moram longe, não têm meios, não há transportes públicos, os professores faltam, estão doentes, têm que trabalhar para sobreviver! É um dos dados mais tristes sobre o estado da infância em Angola.
Preocupa muito, nos últimos tempos, a crise que vitima as franjas mais pobres da sociedade angolana. Uma das consequências é a incapacidade de ter acesso aos cuidados mais básicos de higiene e saúde.
As crianças, mais uma vez, tornam-se presa fácil das doenças e, regra geral, os hospitais não têm meios para tratar e medicar quem recorre aos serviços de urgência e às consultas.
O investimento nas crianças é decisivo para o futuro da humanidade.
Há que dar o melhor para que as crianças cresçam num quadro familiar estruturado, tenham acesso à educação, à saúde, ao respeito integral dos direitos humanos. Assim, há futuro!

Pe. Tony Neves
in “Lusofonias com Missão”