VII ENCONTRO NACIONAL DA APARF - S. Francisco e os Leprosos



A doença da lepra terá surgido na Índia, China e Egipto. As primeiras notícias da mesma aparecem em códices egípcios datados dos séc. XV – XVI antes de Cristo. Na Grécia, a doença aparece após as conquistas de Alexandre Magno (séc. IV a.C.) e em Roma terá sido introduzida pelos exércitos de Pompeu (107-40 a.C.)
Na Idade Média, com o regresso dos cruzados da Síria e da Palestina a doença alastrou por toda a Europa não respeitando idades e atingindo mesmo famílias reais. Lembramos que o nosso rei D. Afonso II morreu leproso.
Pelo risco de contágio, os doentes eram votados à mais dura exclusão. Durante séculos vaguearam pelos ermos, usando vestes que os identificavam, sinetas ou matracas que acusavam a sua presença, e eram sujeitos às mais duras regulamentações ao ponto de serem excluídos da Igreja por uma missa fúnebre e inumação simbólica.
Todavia, é de referir que já desde os tempos de Constantino, entre os cristãos, se começou a reunir os leprosos em pequenas comunidades. Assim, S. Basílio Magno (370 d.C.) fundou em Cesareia um hospital especialmente para o tratamento dos leprosos; o Papa Dâmaso II (1047-1048 d.C.) fundou em Roma a Ordem de S. Lázaro para tratar os leprosos bem como o hospital do mesmo nome. Daí o apelativo “lazaretos” (leprosarias) dado aos centros de tratamento da lepra. (Em Portugal eram também designados gafarias). O número destes centros de tratamento na Idade Média é avaliado em cerca de dezoito mil. Em Portugal existiram 70, sendo a maior parte fundadas por reis, príncipes, nobres e eclesiásticos.
 

Importância dos leprosos na conversão de S. Francisco

S. Francisco nasceu em 1181 em Assis, de uma família burguesa muito rica. Jovial, inteligente e extremamente sensível, era conhecido como o “rei da juventude” de Assis. Até aos 25 anos viveu a sua juventude como qualquer outro jovem. Gostava de festas, de se divertir com os amigos e ser armado cavaleiro era o supremo anseio tanto pessoal como da sua família. Com essa finalidade alistou-se, em 1205, nos exércitos papais comandados por Gualter de Brienne, nas lutas com o Imperador.
Todavia, em Espoleto, a caminho da integração no exército, teve um sonho em que Cristo o questiona: “Francisco, a quem queres servir, ao servo ou ao Senhor?” Francisco respondeu: “ao Senhor”; então retorquiu Cristo, “regressa a Assis e lá te será dito o que deves fazer”. E Francisco regressou a Assis qual desertor, despediu-se dos amigos numa grande festa e sentiu que a vocação dele era servir não ao senhor temporal mas ao Senhor Jesus Cristo. A partir de então a acção de Deus é cada vez mais nítida na sua vida: começa a sentir a necessidade de imitar Cristo, de deixar o homem terreno voltado para as vaidades e ambições humanas e de construir em si o homem evangélico, voltado para Deus e para os outros. É nesta profunda transformação de ideais que encontra, um dia (1205), próximo de Assis, um leproso que de longe lhe pedia esmola.
A reacção de Francisco é descrita por todos os seus biógrafos contemporâneos (Três Companheiros, 11; 2 Celano, 9; 1 de Celano, 17). Apresentamos a narração de Celano na Vida Segunda: “ele que tinha natural aversão pelos leprosos, julgando-os a monstruosidade mais infeliz deste mundo, encontrou-se um dia com um, quando andava a cavalo próximo de Assis. Ficou muito perturbado e aflito, mas, para não faltar à palavra dada (tinha feito o propósito de nada recusar que lhe fosse pedido em nome de Cristo), saltou da montada e correu a beijá-lo. Ao estender o leproso a mão à espera de uma esmola, Francisco beijou-a e deu-lhe dinheiro. Voltou a montar o cavalo e, não obstante encontrar-se em campo aberto, olhando para todos os lados, não mais o viu. Cheio de pasmo e de gozo pelo sucedido, quis repetir o gesto pouco tempo depois. Foi à leprosaria e distribuindo dinheiro por cada um dos leprosos, beijou-lhes a mão e a boca”. (Tomás de Celano, vida segunda, 9).
Após este encontro, a transformação interior de Francisco é de tal ordem que sente uma explosão de alegria em todo o seu ser, e passa a amá-los com verdadeira doçura de alma, como descreve no seu Testamento: “quando eu estava em pecados, parecia-me muito amargo dar com os olhos nos leprosos; mas o mesmo Senhor, um dia, me conduziu ao meio deles e com eles usei de misericórdia. E ao afastar-me deles, o que antes, me parecera amargo, converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo: e em seguida, passado um pouco de tempo, saí do mundo”.
Mais, o seu amor pelos leprosos vai tão longe que ele mesmo se transferiu para uma leprosaria para os servir e com eles conviver: “depois disto transferiu-se para uma leprosaria, vivia com os leprosos servindo-os por amor de Deus com toda a diligência. Lavava-lhes a podridão dos corpos e limpava o pus das suas chagas” (Cel. 17).
Francisco reconhece que este encontro com o leproso teve tal incidência na sua vocação que constituiu um factor determinante na sua resposta ao chamamento do Senhor e deu um matiz específico à sua espiritualidade.
O chamamento do Senhor é para ele: imitar Cristo, pobre e humilde, servo de todos, que assumindo e expiando o pecado da humanidade se assemelha a um leproso, degradado fisicamente e excluído socialmente.
A sua espiritualidade exprime-se em afecto e compaixão (sentir com) para com Cristo, seu Senhor, para com todos os homens, particularmente os mais pobres e marginalizados (então especialmente representados pelos leprosos) e para com todas as criaturas, mormente as mais indefesas e frágeis.
Ele compreendeu que sendo tudo criado por Cristo, tudo adquiria, pela sua Paixão e morte, em que se tornou leproso por nosso amor, a beleza com que saiu das mãos de Deus. Tudo era belo, digno, filho de Deus. Tudo formava uma família, tudo era irmão e irmã. A fraternidade universal que Francisco viveu de modo único, radica nesta consciência de filiação divina que no encontro com o irmão leproso ele descobre com nova profundidade.

Os primeiros frades e os leprosos

Os primeiros frades seguiram o exemplo de Francisco: o serviço dos leprosos, a estadia nas leprosarias não marcou apenas a conversão de Francisco mas foi constituído em Noviciado no início da Ordem. Na primeira Regra, Francisco prescreve: “os irmãos devem estar satisfeitos quando no meio da gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos, e mendigos da rua” (RNB 9, 3)
Ainda na Primeira Regra, Francisco não admite que os frades usem dinheiro. Contudo, fez concessões para os irmãos enfermos e permitia pedir dinheiro para os irmãos leprosos. Pode-se dizer que servir os leprosos e morar entre eles foi o primeiro compromisso estável e a primeira morada dos Franciscanos.
Além disso, nos primeiros tempos da Ordem Franciscana, a permanência entre os leprosos era muito comum “no começo da Ordem, Francisco determinou que os frades morassem nas leprosarias para servirem os seus moradores. Quando os frades, nobres ou não, entravam na Ordem, ele lhes dizia, entre outras advertências, que deveriam servir humildemente os leprosos e habitar nas próprias leprosarias” (EP 44). Por isso, habitar nas leprosarias constituía o noviciado básico para os frades, quase uma condição indispensável para a sua aceitação na Fraternidade. Por outro lado, o amor e dedicação dos irmãos no serviço dos leprosos é realçado como o critério fundamental para medir o progresso na vida de perfeição. Por isso mesmo, Francisco não viveu esse amor apenas ao longo da sua vida mas, no termo dela, já no limite das suas forças, queria voltar a servir os leprosos e ser desprezado como nos outros tempos (Cfr 1 de Celano, 103).

O leproso, o irmão cristão

Cristão evoca para Francisco o conceito ou atitude daquele que traz em si, de forma eminente, a imagem de Cristo, tanto nas chagas exteriores como nas qualidades interiores.
Para Francisco os leprosos são irmãos cristãos, tal como os frades ou a Irmã Clara, porque neles se encontra de forma eloquente a imagem de Cristo que carrega os pecados do mundo, os expia com o seu sofrimento, é marginalizado e excluído e se mostra carente de amor. Chamá-los de irmãos cristãos indica o grande respeito e veneração que por eles tem como pessoas e como aqueles em quem encontrava a mais eloquente imagem de Cristo sofredor.

O serviço dos leprosos, carisma da vocação franciscana

Por tudo o que disse e fez S. Francisco e os primeiros frades, o serviço dos leprosos pode ser considerado uma das notas características do carisma franciscano. Na vida de S. Francisco e dos primeiros frades, sabemos pelo relato das crónicas em quantas leprosarias eles prestavam serviço, habitual ou esporádico. Borgo San Sepolcro, próximo de Trevi, Santa Maria Madalena e S. Rufino dell’Arce, nos arredores de Rivo-Torto, São Salvador das Paredes, entre Assis e Santa Maria dos Anjos, S. Lázaro de Valoncello, em Valneriana, leprosaria cuja fundação se atribui a S. Francisco em 1218, onde eram particularmente tratados os frades leprosos. Note-se, como elemento inovador, que este hospital estava regulamentado mais ou menos como os actuais hospitais e aí viviam juntos, religiosos e leigos, homens e mulheres. Neste serviço de Francisco e seus irmãos eles redescobrem que são seres humanos com dignidade e que têm direito a ser tratados e cuidados com amor na comunidade. Este espírito marcou as primeiras fraternidades da Ordem e transformou a conduta da sociedade.
Já no tempo de S. Francisco a dedicação e serviço prestado aos leprosos contagiou a tal ponto a Igreja, que o próprio Cardeal Hugolino, primeiro Protector da Ordem Franciscana e mais tarde Papa Gregório IX, se sentiu na obrigação de cuidar de um leproso ao qual servia vestido de frade. Esse mesmo leproso perguntou-lhe um dia: “Mas o Sumo Pontífice só tem este velho para cuidar de mim? Isto é um trabalho pesado”! Pouco depois, Hugolino é eleito Gregório IX.

Os Franciscanos e os leprosos, hoje

Ainda em nossos dias os Franciscanos cuidam de leprosos nos cinco continentes em inúmeras leprosarias. Muitos são, através dos tempos, os que morreram contagiados no seu trabalho e dedicação.
Os leprosos do nosso tempo são multiformes e saem ao nosso encontro como multidão de excluídos. Eles necessitam de amor a afecto para sobreviver. Comparável à lepra nos dias de hoje são sobretudo a toxicodependência e a sida, que levam à marginalização e exclusão social. Também hoje, os Franciscanos, sobretudo Frei Hans, no Brasil, com a Fazenda da Esperança e Frei Egídio na Itália com o seu projecto inovador de recuperação dos antigos conventos franciscanos para o tratamento de toxicodependentes e sidosos são expressão do carisma da Ordem ao serviço destes doentes, os mais carentes e necessitados.


P. José Simões Alfaiate -Franciscano e Director da Domus Fraternitas