Raoul Follereau: O Apóstolo dos leprosos e das vítimas de todas as lepras



Raoul Follereau nasceu em França, a 17 de Agosto de 1903, de uma família de industriais de classe média. Seu pai foi mobilizado durante a primeira Grande Guerra, tendo morrido durante e em consequência desse conflito.
Aos quinze anos de idade fez a 1ª Conferência na sua cidade natal, Nevers, com o fim de angariar fundos destinados a ajudar as vítimas dessa catástrofe mundial, nomeadamente os mutilados e desmobilizados sem trabalho, os órfãos e as viúvas, as famílias que se haviam dispersado por causa da guerra.
Em 1920, com 17 anos, publicou o seu primeiro livro, “O Livro do Amor” em que expõe os três pensamentos que hão-de guiar toda a sua vida futura, como cidadão do mundo, fraterno e solidário com os seus semelhantes, em especial os que mais sofrem: doentes, pobres e famintos.
Trata-se de um livro de bolso, que ao longo dos anos foi sendo acrescentado, sobretudo com o testemunho de acções e iniciativas, nas quais o autor vai concretizando os seus pensamentos: “A Única Verdade é Amar”; “Ninguém tem o direito de ser feliz sozinho”; “Ser feliz é fazer os outros felizes”.
Através dos dados biográficos, conclui-se que Raoul Follereau praticou em alto grau as leis do Criador: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Como melhor prova das suas virtudes e de sua mulher que sempre o acompanhou temos a alegria de referir que o processo com vista à sua beatificação e de sua esposa, já foi apresentado à Santa Sé, em Roma. Foi criado, em França, o Movimento para a Glorificação de Raoul Follereau e Madeleine Follereau.
Em 1925, Raoul Follereau casa com Madeleine Boudou, a esposa que havia de acompanhar o Apóstolo dos Leprosos ao longo de mais de 50 anos e que havia de ser considerada por ele como a sua maior fortuna: “A grande fortuna da minha vida foi a minha mulher. Quando decidimos casar, tínhamos, somando as idades, trinta anos. Os nossos pais foram prudentes e sorriram da ideia. Quase cinquenta anos se passaram: hoje somos nós a sorrir. Não fiz uma única viagem sem ela. Acompanhou-me a todas as leprosarias do mundo. Foi sempre o meu apoio. E muitas vezes, a minha consolação. Há quem lhe diga que faz viagens maravilhosas. A maior parte das vezes ela sorri e não responde, talvez a pensar naquela noite que passámos nos confins da Bolívia, numa cabana que os índios Quinchuas nos cederam. Tinha ficado retida por uma crise de apendicite. E estávamos a mil quilómetros do médico mais próximo. Na noite sem luar, adivinhava-a dobrada em duas e ouvia-a gemer. Tive, nessa escuridão que nos esmagava nessa noite, a impressão estranha e um tanto aterradora de que os cabelos – eu tinha trinta anos – se me punham brancos. Ou naquela noite em que o motor da nossa lancha parou no meio do Amazonas e, na escuridão rasgada por relâmpagos, nós nos esforçámos por alcançar a margem, remando... com latas de conserva. Ou noutra noite, num canto perdido do Kasai, ambos cheios de febre, delirávamos, num suplício terrível, mas no dia seguinte de manhã, seguimos viagem...”
Em 1935, ocorre o primeiro encontro de Raoul Follereau com os leprosos. Este episódio acontece casualmente. Mesmo assim, provocou no espírito e na vida deste grande humanista uma viragem quase completa na sua actividade de solidariedade, pois leva-o futuramente, a apoiar prioritariamente estes doentes, promovendo o seu tratamento e cura, reabilitação e reinserção e, sobretudo, a sua dignificação, no sentido de serem considerados sujeitos dos mesmos direitos como todos os outros seres humanos.
“Foi no Níger, numa viagem de reportagem, em que parámos na floresta para deitar água no jeep. Reparando, havia um grupo de pessoas esqueléticas à beira da estrada que logo se afastou.
- Perguntei ao guia quem eram.
- Respondeu-me “são leprosos”.
- Mas não estariam melhor na sua aldeia?
- São leprosos.
- Mas estão a ser tratados?
- Não, são leprosos, respondeu com ar agastado...
Foi então que eu concluí que havia pessoas que por motivo de uma doença eram marginalizadas, não tinham direito a qualquer tratamento, à família, a viverem em comunidade, a estarem à beira da estrada... Por sofrerem de uma doença eram como criminosas, o seu crime era serem atingidos por uma doença, a lepra...”
É a partir deste encontro que Raoul Follereau inicia a grande batalha contra a lepra e todas as lepras que duraria até ao fim da sua vida. Passados mais de trinta anos da sua morte a batalha contra a terrível doença é continuada por um grande número de associações, inspiradas na sua mensagem de solidariedade com os doentes de lepra e de todas as vítimas de exclusão social.
Durante a década de quarenta, especialmente enquanto durou a segunda Guerra Mundial, esteve recolhido no Convento das Irmãs de Nossa Senhora dos Apóstolos, em Lyon, França. Foi então que Raoul Follereau lançou boa parte das iniciativas de solidariedade a favor das vítimas do flagelo mundial. Contam-se, entre outras, a “Hora dos Pobres” em que ele solicitava a cada pessoa uma hora por ano do seu salário, rendimento ou lucro a favor dos pobres; o “Natal do P.e Foucauld” para que todos colaborassem com algo que pudessem tornar o Natal dos pobres mais doce, menos duro. Daí a história dos três sapatinhos na chaminé, sendo o terceiro destinado a um menino pobre.
Todas as iniciativas de Raoul Follereau a favor dos irmãos pobres, dizia ele, seriam actos de Amor, constituiriam uma autêntica cadeia de Amor. Assim aconteceu pois algumas duraram muitos anos e o espírito mantém-se embora com outros nomes. Como exemplo, a Hora dos Pobres em dez anos, recolheu e distribuiu duzentos e cinquenta milhões de francos por quinhentas organizações.
De tantas iniciativas nascidas do coração deste homem singular e apaixonado pelos doentes e mutilados, pelos pobres, resta-nos o seu exemplo, mensagem e obra que cento e trinta instituições com o seu nome procuram continuar, com prioridade para a grande “Batalha contra a lepra”.
Não devemos esquecer muitas outras acções iniciadas por Raoul Follereau com resultados apreciáveis a favor dos doentes de lepra e de todos os seres humanos pobres e sofredores, como a Fundação da Ordem da Caridade para ajudar os pobres e as famílias, vítimas da II Guerra, a Conferência “A Bomba Atómica ou Caridade”, o pedido à ONU sobre o Estatuto Internacional dos Doentes de Lepra, para a instituição de um dia dedicado aos leprosos (hoje celebrado em 130 países), Carta aos Senhores da Guerra e da Paz (Presidentes da América e da Rússia), solicitando o valor de um bombardeiro para tratar os leprosos do mundo.
Raoul Follereau visitou Portugal (1ª vez) e o Hospital Rovisco Pais, em 1957, elogiando o tratamento aí dispensado aos leprosos.
Em 1952, apresentou à Assembleia Nacional Francesa uma petição para a elaboração de um dia anual dedicado aos leprosos que a mesma aprovou por unanimidade e solicitou à ONU a inscrição do mesmo na Ordem de Trabalhos. Esta instituição internacional deu provimento à mesma e instituiu, em 1954, o Dia Mundial dos Leprosos, a ser celebrado, futuramente, no último domingo de Janeiro. É grato reconhecer que, desde essa data (1954), é celebrado pelo menos, em todos os países onde há uma associação inspirada em Raoul Follereau que se contam por mais de 130. Referimos ainda, como muito importante, a criação, em 1960, do ILEP, (Federação Internacional das Associações que lutam contra a lepra), a nível mundial; dois anos depois, lança a UIARF – União Internacional das Associações que se inspiram na sua mensagem, acção e obra.
Em 1962, enviou uma mensagem a todos os chefes de Estado, solicitando a sua atenção para a pobreza no mundo.
Em 1968, visita Portugal pela segunda vez, deslocando-se ao Hospital Rovisco Pais e proferindo conferências em Lisboa e outras cidades com o mesmo tema: “A lepra, seu tratamento e cura”.
Raoul Follereau que havia dado a volta ao mundo 32 vezes, que tinha visitado 105 países e todas as leprosarias do mundo, visita, pela última vez, a África (1972). Sabia que a sua missão estava cumprida e tornava-se necessário que as suas iniciativas continuassem.
Raoul Follereau celebra, em 1975 as bodas de ouro matrimoniais e começa a escrever a sua última mensagem a qual seria impressa sob o título “O Tesouro que vos deixo”.
Além de constituir uma premonição a elaboração desta mensagem, pois Raoul Follereau advertia os destinatários desta mensagem – os jovens de todo o mundo – que “quando lerem esta mensagem já eu me terei encontrado com o Amor…”.
Assim aconteceu, quando a última mensagem de Raoul Follereau chegou àqueles a quem ele a dirigia, os jovens do mundo inteiro, já ele se tinha despedido da sua vida terrena, a 6 de Dezembro de 1977.
O seu exemplo de dedicação ao próximo, o bem que fez a milhões de leprosos, crianças e idosos, mutilados e pobres ficou para meditação e imitação de virtudes até que sejam reconhecidas, por quem de direito, para a sua elevação à dignidade dos altares.
Como Apóstolo dos Leprosos bem nos parece merecer essa dignidade.


João Ferreira